Especialistas defendem monitorização do uso de fármacos inovadores no tratamento do cancro

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Portugal é dos países em que a introdução de novas terapêuticas oncológicas é mais demorada, diz a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia. Média em 2015 era de cerca de um ano e meio.

É preciso criar em Portugal sistemas de informação que permitam monitorizar a utilização da imunoterapia, um tipo de terapêutica inovadora na luta contra o cancro, e desenvolver mecanismos e metodologias “robustas” de selecção dos doentes a tratar.

Estas são algumas das recomendações produzidas pelos 30 especialistas em oncologia e estudo do cancro que participaram no “Consenso Estratégico sobre o Valor da Imuno-Oncologia em Portugal”, um trabalho do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa (UCP) que vai ser apresentado em Lisboa nesta terça-feira.

O objectivo do trabalho foi analisar as mais-valias que a imunoterapia – uma nova forma de tratamento do cancro que põe o sistema imunitário do doente a lutar contra a patologia representa e as vantagens e dificuldades da sua aplicabilidade em Portugal.

Os peritos concordam que, em algumas das indicações em que tem sido usada (sobretudo nos melanomas e cancro dos rins), a imunoterapia tem conseguido resultados muito promissores, mas avisam que é preciso perceber com rigor quais são as suas vantagens e eventuais efeitos a médio e longo prazo.

“Fomos muito cautelosos na parte clínica, porque ainda há muito desconhecimento [sobre estas terapêuticas]”, justifica a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), Gabriela Sousa. “Os efeitos a médio e a longo prazo são ainda desconhecidos, nomeadamente no que diz respeito a doenças do foro auto-imune e a aspectos relacionados com fertilidade e gravidez”, lê-se no documento.

Mas para monitorizar devidamente a utilização da imunoterapia e outras terapêuticas, advogam os peritos, é necessário criar um registo oncológico nacional único (actualmente temos três registos regionais).

Também seria muito importante conseguir “seleccionar melhor os doentes” que precisam dos novos fármacos, nomeadamente através de biomarcadores (testes genéticos e moleculares), enfatiza a presidente da SPO.

No “consenso estratégico”, os especialistas destacam igualmente os problemas do subfinanciamento da oncologia e a “iniquidade no tratamento dos doentes de acordo com a área da residência”.

Gabriela Sousa concretiza a ideia: “Portugal é dos países em que a introdução de novos fármacos é mais demorada”, apesar de “a situação ter melhorado muito nos últimos meses.”

No final do ano passado, o tempo médio para a aprovação de um medicamento inovador era de 537 dias, diz.

Na fase da avaliação prévia da comparticipação estatal, os médicos dão resposta aos casos mais urgentes com as chamadas autorizações de utilização especial (AUE), que permitem que os pacientes tenham acesso a terapêuticas ainda não comparticipadas.

Mas esta é uma solução que “implica desigualdade no acesso, porque depende da estrutura de saúde onde o doente está a ser tratado e da decisão de assumir ou não o encargo com o medicamento“, critica a presidente da SPO. É também uma solução que acaba por sair muito cara, uma vez que nestes casos paga-se o preço de tabela dos fármacos, não há uma negociação prévia, acrescenta.

De resto, alguns dos especialistas (nesta matéria não houve consenso) defendem, por outro lado, no documento que a sobrevivência global não deveria ser considerado o critério mais relevante para a aprovação da utilização de um fármaco inovador, tendo que ser ser levada em conta a qualidade de vida que o novo tratamento proporciona ao doente, a sua tolerabilidade e toxicidade.

Fonte: Publico

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