Mais doentes com cancro operados fora do prazo

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Aumento do número de doentes e falta de pessoal podem explicar quebra na resposta no IPO de Lisboa

Um quarto dos doentes à espera de cirurgia no IPO (Instituto Português de Oncologia) de Lisboa só é operado depois do prazo legal limite (que nos casos muito prioritários é de 15 dias), tempos de espera que pioraram este ano.

Segundo os dados publicados no Portal do SNS, uma das áreas em maiores dificuldades é a de Otorrinolaringologia, em que um doente que devia ser operado no máximo em duas semanas tem de esperar um mês por cirurgia.

Em causa estará a lei da liberdade de escolha dos hospitais que levou ao aumento da procura por parte dos doentes, segundo a Liga Portuguesa Contra o Cancro. Já a Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) alerta para a falta de profissionais – transversal a todo o país.

Os dados disponíveis na página da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) mostram que o IPO de Lisboa foi dos institutos de oncologia o que viu piorar mais os tempos de resposta, em junho de 2016, em relação ao mesmo período do ano passado.

Este ano, tinha operado dentro dos limites legais (ver caixa) 75,2% dos doentes inscritos na lista de espera, enquanto no mesmo período de 2015 esse valor era de 80,8%. Números que o presidente do IPO, Francisco Ramos, não quis comentar, enquanto não tiver uma solução, disse ao DN. Já os institutos do Porto e Coimbra tiveram variações negativas mais baixas. O primeiro passou de 73% para 72,9% e o segundo de 79,8% para 78,9% dentro do prazo, entre 2015 e 2016.

Um relatório do hospital disponível online – mas em relação ao primeiro trimestre do ano – explicava que a 31 de Março o tempo médio de espera para cirurgia era de 68 dias. Lembrava ainda a existência de poucos doentes em alguns serviços à espera, como era o caso de pediatria e oftalmologia com um caso cada.

Admitia que nessa altura 23% das cirurgias eram feitas foram do tempo, mas sublinhava que o tempo ultrapassado era “pequeno”. “Visto que para 14% desses doentes o prazo foi ultrapassado em 5 dias, para cerca de 22% em 10 dias e para cerca de 35% em 15 dias”. Os dados mais recentes disponíveis na página do SNS, de junho, mostram um outro extremo onde a especialidade de Otorrinolaringologia tinha 31 dias de espera e havia 51 pessoas na lista, para casos que deviam ser respondidos em duas semanas.

A propósito da ultrapassagem dos tempos, a presidente da SPO, Gabriela Sousa, – que não quis comentar os resultados concretos de nenhum dos institutos -, disse ao DN que, embora “cinco dias não façam diferença na vida do doente”, se os prazos existem é porque devem ser cumpridos de forma a garantir o melhor tratamento possível. “Pretende-se que os doentes tenham a adequada resposta e uma interligação dos tratamentos que tem de ser ágil e nos tempos certos”, defende.

A própria Sociedade tem “chamado a atenção para o aumento do número de casos esperado na oncologia, para o facto de os doentes viverem mais e se fazerem mais linhas de tratamento”, que exigem mais profissionais. A que se soma a inadequação dos tempos de consulta definidos: “20 minutos não chegam para a consulta do doente oncológico”, alerta.

Já Vítor Veloso, presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, sublinha o aumento da procura desde que os doentes passaram a escolher o hospital onde querem ser tratados, em maio. Os números da ACSS apontam que apesar de ter caído a percentagem de primeiras consultas realizadas a tempo – de 97% para 93% – aumentou o número de doentes atendidos, este ano. Foram recebidos 323 doentes, mais que os 204 de 2015.

Vítor Veloso reconhece ainda a falta de capacidade de resposta que o IPO de Lisboa enfrenta. “O atual conselho de administração do IPO de Lisboa recebeu um hospital altamente degradado, sem tecnologia e sem pessoal de saúde para responder à procura de doentes que tem tido. Sei que este conselho de administração, e o presidente em particular, está a fazer um esforço muito grande para responder e sei que estão empenhados em reformar a instituição. Penso que é uma situação que vai reverter”.

É por acreditar no empenho dos responsáveis que Vítor Veloso desdramatiza os incumprimentos. “Efetivamente gostaríamos que os tempos máximos de espera, quer para as consultas dos cuidados primários, quer para a rede de referenciação, fossem cumpridos e que o tratamento fosse também dentro dos prazos normais. Se não forem cumpridos podem não representar à primeira vista uma situação dramática para o doente, mas são dados que desagradam”.

No entender de Jorge Espírito Santo, oncologista no hospital do Barreiro e ex-presidente do Colégio de Oncologia Médica da Ordem dos Médicos (cuja presidente o DN tentou sem sucesso contactar), o agravamento na capacidade de resposta deve-se a uma orientação de centralização na resposta de doenças, como o cancro. “Haver algum aumento não é surpreendente porque há mais doentes, mas é preciso que haja mais capacidade para os tratar em tempo e que sejam descentralizados os locais onde são tratados”, defende. Para isso, “não pode haver a ideia de que as pessoas só são tratadas com qualidade nos IPOs. Não está em causa a qualidade do trabalho deles, mas há qualidade de tratamento em muitos outros sítios”.

Fonte:dn.pt

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