Quando os comentários que magoam vêm de quem gosta de nós

Autora – Joana São João Rodrigues
Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia
Quando os comentários de quem gosta de nós nos magoam…
Quase de certeza que a maioria das pessoas já passou por esta situação, ou conheceu alguém que tenha passado.
– “Então mas não achas que te estás a envolver demasiado cedo com alguém? Devias fazer mais tempo o luto da relação!”
– “Mas não estás a amamentar com leite materno? Não sabes dos benefícios? Tens mesmo que tentar, não podes desistir!”
– “Mas vais ver que as coisas passam… ele pode andar assim um pouco violento e agressivo, mas vocês já estão casados há tanto tempo, ele deve andar aborrecido com o trabalho, vais ver que isso passa e não te vai bater mais”
– “Mas ela mentiu-te? Eu jamais perdoaria! Nem queria perceber as razões…”
– “Dizias tanto que o amavas e dois dias depois já estás na farra!”
– “Não podes passar o fim-de-semana inteiro fechado em casa, tens que sair e conhecer pessoas”
Muitas vezes os comentários e as opiniões que as pessoas que estão ao nosso redor nos dão, podem não ajudar, por vezes até podem fazer exactamente o contrário: confundem-nos, colocam-nos em baixo, pressionam e/ou culpabilizam-nos.
Com certeza que a ajuda bem-intencionada, e bem direccionada é um apoio; mas quando é mal direcionada pode-se transformar em algo muito frio, duro e destruidor da autoestima. Alguns comentários são profundamente injustos. As pessoas esquecem que não têm o direito de julgar como nos sentimos.
As pessoas podem fazer comentários com o intuito de mostrar que se preocupam, e que por isso dizem o que acham que nos “poupará” de algum sofrimento, mas não nos podemos esquecer que o nosso mundo emocional é muito sensível às nossas condições específicas. Assim, nem nós nem os outros têm o direito de julgar a forma como as pessoas se sentem.
E que tal pensarmos que as emoções não nos tornam melhores nem piores, e que a forma como agimos, muitas vezes, pode não estar tão coerente assim com a forma como nos sentimos? Como é aceitarmos que cada momento nos pode despertar uma determinada emoção e que podemos fazer algo diferente do que a maioria das pessoas esperaria? Como é valorizarmos a pessoa que partilha a sua opinião e comentário, ao mesmo tempo que valorizo a minha decisão?
Como é aceitarmos que as pessoas que gostam de nós gostariam de nos orientar à sua forma? E como é manifestarmos esse agradecimento ao mesmo que tempo que explicamos que temos uma outra maneira de ver a situação? E que na verdade essa situação é nossa, faz parte das nossas experiências, e mesmo que seja para falhar… Talvez seja porque necessitamos de cometer esse erro para podermos aprender?
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.
Autora: Joana de São João Rodrigues


