Reaprender novamente – Programa Aprende +

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Autora – Márcia Carrola  

Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia

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Reaprender novamente

O presente artigo fala sobre a aplicação do Programa Aprende + (Programa de Promoção de Competências Escolares, Pessoais e Sociais) criado pelo Centro de Estudos e Psicoeducação, Motivada Mente, para indivíduos portadores de deficiência intelectual ligeira a moderada, com mais de 18 e menos de 40 anos.

O nosso individuo excecional enquadra-se no Síndroma de Down que por não ter tido acesso a um projeto que o enquadrasse, perdeu conhecimentos importantes para a sua qualidade de vida. É acompanhado pelo psicólogo, terapeuta da fala e professor. 

Síndroma de Down, 32 anos, fez o seu percurso escolar num país estrangeiro com língua oficial Inglesa.  Reside já a alguns anos em Portugal. Durante cerca de 5 anos foi apoiado por um CAO – Centro de Atividades Ocupacionais.

A progenitora optou por o retirar porque achava que ele estava a perder capacidades e manifestava comportamentos pouco corretos segundo as regras de boa educação. O pedido ao Centro de Estudos e Psicoeducação, Motivada Mente, vem no sentido de fazer uma avaliação psicológica para posteriormente implementar-se o Programa Aprende + (Programa de Promoção de Competências Escolares, Pessoais e Sociais).

O programa Aprende + é vocacionado para adultos portadores de deficiência intelectual ligeira ou moderada, com mais de 18 anos e menos de 40 anos.

Os objetivos do programa são; desenvolver o conhecimento de si próprio e do outro, reconhecendo e aceitando a igualdade e a diferença existente entre si e os outros (características físicas, psicológicas, necessidades, desejos, sentimentos, atitudes e valores);

Estimular e desenvolver a capacidade de se adaptar e inserir afetivamente e ativamente no meio social envolvente; Desenvolver a destreza digital e a visuomotricidade, linguagem e conceitos;

Desenvolver o gosto pela escrita e pela leitura, identificar as personagens de um texto, ordenar palavras para fazer frases, responder a questões simples, entender o sentido de um texto e contribuir para a sua continuação, estabelecer uma sequência de acontecimentos, praticar jogos de palavras com letras ou sílabas a partir da troca de letras, saber ler noticias simples, revistas e outros similares, saber escrever o básico para as tarefas do dia a dia;

Saber ler e escrever números até 100, nomear os sólidos geométricos simples, saber a tabuada, saber somar, subtrair, dividir e multiplicar números de 2 e/ou 3 dígitos, fazer aproximação dos números racionais, saber as medidas de comprimento, de capacidade e massa, conhecer o valor das moedas e notas e fazer trocos simples;

O programa decorre há cerca de 4 meses e temos obtido bons resultados. É implementado numa frequência de duas vezes por semana, duas horas, divididas entre o trabalho do professor, terapia da fala e do psicólogo.

Com o Programa aprende + queremos ensinar o nosso indivíduo excecional a:  esperar a sua vez, regras sociais básicas de grupo, trabalhar de forma independente, desenvolver amizades, apreender e desenvolver habilidades práticas e de auto-ajuda e a ser autónomo nas tarefas e situações simples da vida.

Os indivíduos com Síndromas de Down possuem características muito especificas. O seu conhecimento é essencial para ajuda-los a ultrapassar as suas dificuldades.

Por norma, são resistentes às atividades novas. É necessário motivar para a aprendizagem com tarefas doseadas das mais simples para as mais complexas, muito atrativas e com um grau de dificuldade crescente. 

É de extrema importância criar-se as rotinas, em cadeia, ou seja, as tarefas são executadas sempre na mesma ordem e a mesma hora, aproximadamente. Isto faz com que eles se sintam seguros. Ex: acordar, cuidar da higiene, tomar o pequeno almoço, fazer a cama, etc. Todas as vezes que executa as tarefas de forma correta, deve ser reconhecido com um reforço do género: “Boa!”, “Fizeste tudo muito bem!”, etc.

Assim, o mais significativo do programa, até a data do artigo, espelhou-se no quadro baixo.

Atividade/Conhecimento Desempenho/Avaliação
Escrever o nome  Inicialmente, estava “esquecido” e a letra era muito imprecisa. Com o treino e a continuidade verificamos uma melhoria significativa.
Escrever outras palavras básicas como cópia e de memória. Verificamos que de memória reproduz o nome. Todas as outras palavras, consegue reproduzir por cópia, tendo melhorado o grafismo ao longo deste período.
Dias da semana e meses do ano. Não se recorda de todos e, por vezes, baralha a sequência.
Recriar personagens e ações. É pouco criativo. Desiste à partida. Começa a manifestar algum interesse pela história essencialmente se encaixada no meio de um jogo que goste.
Ouvir um texto e identificar as personagens do texto. Revela algumas dificuldades neste item essencialmente se o texto for um pouco grande. Perde-se na história.
Contar até 10. Por vezes, trocava os números. Neste momento já consegue dizer a sequência sem se enganar.
Falar e identificar os sentimentos O nosso sujeito faz alguma resistência no trabalho com os sentimentos porque não gosta de falar sobre os sentimentos negativos. Gosta de falar dos positivos.
Identificar os números no papel. Inicialmente baralhava-se ou desistia dizendo “não sei”. Neste momento identifica sem se enganar números de 1 a 10.
Fazer contas básicas com números de 1 a 10 Com a ajuda de exercícios de pintar os quadrados ou através de pedras, onde tira e põem o objeto fisicamente, já entende operações de subtração e soma básicas. Não é autónomo nesta atividade.
Decorar as regras de um jogo Construiu, juntamente com a equipa, 3 jogos básicos e decorou as regras de jogo.
Capacidade de trabalho, atenção/concentração. Estas capacidades têm vindo a melhorar. Tem demostrado muita motivação para as atividades propostas. Faz o que lhe é pedido com gosto e cuidado. Inicialmente fazia alguma resistência em algumas tarefas.

 

Em suma, concluímos que com trabalho, dedicação, paciência e método é possível ensinar de forma sistematizada indivíduos portadores de deficiência intelectual, no nosso caso,  um indivíduo com Síndroma de Down, com sucesso.

Após a aprendizagem ser efetuada é necessário fazer-se uma manutenção da aprendizagem pois se ela não for “treinada” é esquecida.

Esta é uma problemática bastante pertinente para as nossas crianças com necessidades educativas especiais, pois enquanto estão a completar o percurso escolar têm acesso a este treino e manutenção, mas quando concluem a escolaridade obrigatória deixam de estar integrados em estruturas que façam a manutenção das capacidades escolares e outras apreendidas anteriormente. Esta “quebra” na aprendizagem é bastante limitadora, essencialmente na autonomia e qualidade de vida do individuo portador de deficiência moderada e suas famílias. 

 

Autora: Márcia Abreu Corrola

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