O uso excessivo das tecnologias afeta a nossa Saúde Mental?

Partilhe

Alan-santos-perfil-viva-saude

 

Autor – Alan Santos 

Ver perfil completo 

 


O uso das tecnologias na nossa vida pode afectar ou não a nossa saúde mental?

Com o ingresso na contemporaneidade o indivíduo sofreu diversas alterações no seu comportamento. Um dos fatores que compõe a estrutura que alterou radicalmente o modo pelo qual o ser humano age, é a tecnologia. Não se sabe exactamente qual é o impacto desta última na estrutura psicológica dos indivíduos. Não obstante, mesmo sendo a curto prazo podemos ver indicativos de que algo diferente está a ocorrer.

Existe uma velha história que sempre ouvimos de alguém com mais idade dizer “No meu tempo…” e nesse ínterim vem toda uma narrativa e uma descrição pormenorizada de um tempo remoto que não volta e que se torna lembrança.

Não é necessário ser nenhum gênio para alegar que é observável o efeito dos meios de comunicação sobre a conduta dos indivíduos. Basta pegarmos um autocarro e já vemos o indício de um novo modo de posicionamento dentro das relações. Se há 20 anos atrás estivéssemos dentro de um autocarro sem nenhum telemóvel na mão, era muito provável vermos as pessoas a conversar umas com as outras.

O simples fato de uma pessoa que usa transportes públicos estar disponível para se comunicar, isto é, estar aberto para a possibilidade de uma comunicação já produzia o próprio contato.

Por sua vez, hoje, a técnica ao meu ver exacerbou ainda mais o individualismo no sentido de que, se antes o indivíduo estava receptivo a uma conversa, atualmente a mesma é impossibilitada, uma por causa do fone de ouvido “estou ouvindo a minha música” e a outra por conta dos telemóveis, que fez as pessoas estarem mais próximas uma das outras sem nenhuma espécie de obstáculo.

Portanto, se antes eu conversava com a minha namorada no final de semana quando íamos sair, hoje incansavelmente e initerruptamente temos contato frequente, desde do horário da manhã quando acordo com um “bom dia” e no almoço me indagando de como foi o trabalho, temos ainda de adicionar os acontecimentos quotidianos que são relatados de maneira imediata. Aquele famoso acúmulo de tensão “preciso tanto conversar com ela” ou o desabafo, passa a se esvair no montante de informações virtuais.

Nesse sentido deve ser questionado o que propriamente seria saúde mental. Seria por um acaso a liberdade de usufruir de tudo que me é fornecido, como por exemplo a utilização excessiva do uso de telemóvel – não apenas por parte dos adultos, mas também das crianças – Teríamos também de questionar: e a não utilização? É saudável?

Quando entramos no campo das doenças mentais nos colidimos com diversas variáveis, temos a variável biológica, a social e a psicológica. Muitas vezes do ponto de vista físico o sujeito pode estar bem, mas do psicológico existe um grande sofrimento – o que no caso não é sinônimo de transtorno mental, mas pode ser um indicativo.

O que determina a saúde de um sujeito não é propriamente a utilização exacerbada ou deficiente de um aparelho de comunicação, mas sim o porquê da excessiva utilização ou não.

O modo de relacionamento da pessoa com a tecnologia pode determinar a sua saúde, nessa via a definição do que propriamente seria saúde mental é relacional. No entanto, é importante frisar que daí em diante podemos entrar no campo da moral: o bom e o ruim. Mas nem sempre o que é bom para você, talvez seja para mim, por que isto varia de subjetividade para subjetividade.

Ao mesmo tempo, temos de ter cuidado para não cairmos no relativismo moral, pois desse ponto em diante não é difícil o indivíduo produzir qualquer forma de comportamento sem considerar as consequências sociais do mesmo.

E como poderíamos entender isso de maneira concisa? A avaliação desse caso em específico, disto que chamamos de saúde psicológica, passa pelo fator relacional – como dito antes – e pela subjetividade do sujeito.

Tudo aquilo que é produzido pode passar pelo filtro do subjetivismo, isto é, podemos saber o que é bom ou mau para nós, mas deve existir a consciência das limitações e esse limite é feito por meio do outro, as ações devem estar pautadas unicamente e exclusivamente dentro de seu próprio espectro de ação não podendo sair do mesmo.

As consequências do relativismo moral só poderá ser considerado passível de validação e até mesmo de ser saudável ou não, quando não acarretar consequências noutra pessoa.

Suponhamos que uma pessoa decida se excluir da sociedade e de todos os meios de interação e depois de algum tempo regressa, do ponto de vista dessa pessoa ocorreu tudo bem, pois conseguiu exercitar as suas capacidades sem interferência nenhuma dos mecanismos sociais, não obstante, essa pessoa torna-se ríspida e arrogante para com os outros, acaba produzindo comportamentos excessivamente narcísicos que tem como consequência o rebaixamento da capacidade de ser colocar no lugar do outro.

Essa pessoa tenderá a ter problemas de ajustamento social e haverá possivelmente uma grande dificuldade de produzir vínculos afetivos – que são importantes para o desenvolvimento psicoafetivo.

Se entendermos de uma perspectiva longitudinal, uma pessoa que se refugia na solidão a longo prazo pode ter consequências severas e os índices de depressão podem aumentar, um exemplo clássico são os fatores de risco para o suicídio, um deles é: ausência de vínculo afetivo no sentido de relações familiares, seja paternal, filial ou conjugal.

Para concluirmos essa questão e finalizarmos, irei ressaltar a questão das diversas variáveis para se entender a saúde mental e até mesmo o comportamento humano.

Os seres humanos são inabordáveis no sentido estrito de uma ciência quantitativa, há de se entender os diversos fatores constituintes do próprio processo daquilo que seria um homem – uma criatura que sabe mais ou menos fazer escolhas – portanto, quanto mais determinantes houver para a análise da conduta, maior são as possibilidades de se chegar a uma realidade mais complexa daquilo que propriamente poderíamos chamar de uma doença mental.

 

Autor: Alan Santos

 

Deixar uma resposta

Newsletter